Mego e Playmates: duas eras de Star Trek em figuras
Para quem coleciona brinquedos baseados em ficção científica, as figuras de Star Trek produzidas pela Mego e pela Playmates representam momentos muito diferentes da indústria. Embora ambas tenham levado personagens da franquia para as prateleiras, cada empresa adotou uma escala, uma linguagem visual e uma proposta de brinquedo próprias. Compará-las é observar a transformação do mercado entre os anos 1970 e os anos 1990.
A diferença aparece logo no primeiro contato: as peças da Mego são maiores, vestem roupas de tecido e lembram bonecos de ação clássicos, enquanto as da Playmates apostam em esculturas plásticas, uniformes moldados e uma variedade muito maior de personagens. A semelhança entre os produtos está na capacidade de traduzir o universo da Enterprise em objetos colecionáveis, mas a experiência de posse e exposição é bastante distinta.
O Contexto De Cada Fabricante
A Mego entrou no universo de Star Trek durante a década de 1970, quando a série original ainda era a principal referência da franquia. Sua linha mais conhecida adotava o formato de aproximadamente 20 centímetros, equivalente a oito polegadas, seguindo o padrão que a empresa já havia popularizado com super-heróis, personagens de televisão e figuras licenciadas. Capitão Kirk, Spock, McCoy, Scotty e outros tripulantes apareciam como bonecos de presença marcante.
Naquele período, uma figura licenciada precisava funcionar como brinquedo e como representação do personagem. A Mego aproveitava corpos relativamente padronizados, trocando cabeças, mãos, trajes e acessórios conforme a propriedade intelectual. Essa estratégia permitia produzir uma coleção ampla sem criar um corpo completamente novo para cada personagem, algo importante em uma época de custos industriais mais elevados e menor variedade de formatos.
A Playmates chegou ao mercado em um cenário mais competitivo, impulsionado pelo sucesso de Star Trek: The Next Generation e pelo crescimento das lojas especializadas. A empresa lançou sua linha principal no início dos anos 1990, com figuras menores, geralmente na faixa de quatro a cinco polegadas, e uma seleção extensa de integrantes da tripulação, alienígenas, vilões e personagens convidados. O objetivo era formar um universo de brinquedos interligado, com veículos, playsets e acessórios.
A diferença de época também explica a maneira como cada fabricante tratou a franquia. A Mego trabalhava com a imagem mais aventureira e teatral da série clássica, enquanto a Playmates se beneficiava de uma licença televisiva moderna, de campanhas promocionais mais estruturadas e de um público já acostumado a linhas de ação articuladas.
Escala, Materiais E Aparência
O tamanho é o primeiro elemento que separa os dois grupos. As figuras da Mego têm uma silhueta mais alta e esguia, com pernas compridas e um corpo que se aproxima dos bonecos de moda em proporção. As da Playmates são mais compactas e robustas, pensadas para caber em naves, pontes de comando e cenários menores. Essa diferença interfere diretamente na exposição: misturar os dois fabricantes na mesma prateleira pode produzir uma sensação de escala pouco coerente.
Os uniformes da Mego são, em grande parte, confeccionados em tecido. Camisas, calças, cintos e botas podem ser peças separadas, o que cria uma aparência próxima à de uma miniatura vestida. O tecido envelhece, pode desbotar, rasgar ou perder a forma, porém acrescenta textura e autenticidade ao boneco. Em exemplares bem conservados, a roupa é um dos maiores atrativos visuais da linha.
A Playmates utiliza roupas moldadas no próprio plástico ou aplicadas como partes rígidas do corpo. As linhas dos uniformes, os comunicadores, os emblemas e os detalhes dos trajes são esculpidos ou pintados diretamente na figura. Isso favorece a resistência ao manuseio e mantém uma aparência uniforme entre personagens da mesma coleção. Por outro lado, a solução transmite menos a sensação de uma miniatura vestida e mais a de um brinquedo articulado contemporâneo.
O acabamento também segue prioridades diferentes. A Mego valoriza a identidade geral do personagem, especialmente por meio do rosto, do penteado e do uniforme. A Playmates investe em variações de expressão, texturas, acessórios e detalhes específicos de cada episódio. Ainda assim, a qualidade pode oscilar dentro de cada linha: algumas figuras têm esculturas muito convincentes, enquanto outras apresentam pintura irregular ou proporções simplificadas.
Articulação E Experiência De Brincar
As figuras da Mego possuem articulação suficiente para poses básicas, mas sua engenharia é simples quando comparada aos padrões posteriores. Os pontos costumam incluir pescoço, ombros, cintura e quadris, com braços e pernas apoiados em um corpo interno de plástico. O resultado permite colocar Kirk em posição de comando ou Spock segurando um tricorder, porém limita movimentos mais dinâmicos.
Esse aspecto está ligado ao modo como os brinquedos eram fabricados nos anos 1970. Para entender melhor por que muitos bonecos daquela época se movem tão pouco, vale consultar o material sobre articulações limitadas, que ajuda a contextualizar as escolhas de construção comuns àquele período. A simplicidade não deve ser interpretada automaticamente como defeito: ela fazia parte do equilíbrio entre custo, durabilidade e produção em larga escala.
Na Playmates, a articulação é geralmente mais numerosa e visível. Pescoço, ombros, cotovelos, cintura, quadris e joelhos aparecem com frequência, embora a configuração varie de acordo com o personagem e a série. Algumas figuras trazem mãos adaptadas para segurar acessórios, enquanto outras receberam mecanismos especiais, como braços acionados, lançadores ou efeitos sonoros. O brinquedo passa a convidar o consumidor a reproduzir cenas e criar confrontos.
A maior mobilidade, porém, não significa que todas as figuras da Playmates sejam superiores em escultura ou acabamento. Os encaixes podem ficar aparentes, os joelhos podem parecer grossos e certos acessórios atrapalham a postura. A Mego, por sua vez, apresenta uma estética mais limpa e uma presença maior na estante. A escolha depende de o colecionador priorizar pose, fidelidade visual, nostalgia ou conservação histórica.
Personagens, Acessórios E Variedade
A Mego concentrou sua representação principalmente na tripulação central da série original. Capitão Kirk, Spock e Dr. McCoy formam o núcleo mais reconhecível, acompanhados por figuras como Scotty, Uhura e Chekov conforme a disponibilidade da linha. Os personagens são identificados por seus uniformes coloridos, cabelos e feições gerais, em uma tradução econômica, mas muito ligada ao imaginário televisivo da época.
Os acessórios da Mego costumam ser pequenos e funcionais. Phaser, comunicador, tricorder e outros equipamentos aparecem como peças independentes, muitas vezes em plástico simples. O valor desses itens vai além da aparência: acessórios corretos ajudam a diferenciar versões e completam a narrativa do boneco. Como são fáceis de perder, exemplares com o conjunto original tendem a despertar atenção especial entre colecionadores.
A Playmates ampliou radicalmente o repertório. Além dos protagonistas de The Next Generation, a empresa produziu personagens de Deep Space Nine, Voyager, séries clássicas, filmes e diferentes fases da franquia. Klingons, Borgs, Ferengi, Romulanos, oficiais secundários e figuras de episódios específicos passaram a ocupar espaço nas lojas. Essa abrangência tornou possível montar uma tripulação inteira, uma sala de transporte ou um confronto entre federações e impérios.
Outro diferencial foi a integração com naves e cenários. A Playmates lançou versões da Enterprise, da Defiant, da Voyager e de outras embarcações em tamanhos compatíveis com suas figuras. Também criou pontes, estações e playsets que transformavam a coleção em um pequeno sistema de brincadeira. A Mego teve veículos e acessórios relacionados à série, porém sua linguagem era menos orientada para um ecossistema de produtos interligados.
Para o colecionador, a variedade da Playmates pode ser fascinante e exaustiva. Há muitas versões do mesmo personagem, com uniformes diferentes, armas, poses e alterações de pintura. Na Mego, a coleção principal é mais enxuta, e cada personagem clássico ocupa uma posição mais definida. Uma linha favorece a completude por expansão; a outra favorece a seleção de peças emblemáticas.
Valor Histórico E Identidade Do Colecionador
As figuras da Mego carregam uma importância histórica que ultrapassa a licença de Star Trek. Elas pertencem à fase em que bonecos de oito polegadas ajudaram a estabelecer um padrão para produtos de televisão e quadrinhos. O uso de roupas de tecido, corpos reutilizados e acessórios simples tornou-se uma assinatura da empresa, reconhecível mesmo quando a escultura apresentava limitações.
Por serem mais antigas, as peças da Mego exigem atenção a conservação. O tecido pode apresentar manchas, os elásticos internos podem perder tensão e o plástico pode sofrer desgaste. Também existem reproduções e customizações que confundem compradores menos experientes. Etiquetas, costuras, pintura facial, formato das mãos e acessórios originais ajudam a avaliar a autenticidade de um exemplar.
As figuras da Playmates possuem outra relação com a memória afetiva. Para muitos fãs, elas foram o primeiro contato físico com Star Trek, adquiridas em lojas de brinquedos durante a exibição de The Next Generation ou encontradas em catálogos e convenções. A fabricação em escala menor, a embalagem colorida e os recursos de ação aproximavam a franquia de uma geração acostumada a linhas como G.I. Joe, Transformers e outras coleções articuladas.
No mercado de usados, a Playmates oferece uma porta de entrada mais acessível, embora certas variações, protótipos, exclusividades de convenções e personagens pouco distribuídos possam alcançar preços altos. Já a Mego costuma atrair quem valoriza antiguidade, completude, estado da roupa e raridade de determinadas versões. Em ambos os casos, o preço depende muito da conservação e da procedência, e não apenas do personagem retratado.
A comparação entre as duas empresas revela duas formas de imaginar o colecionável. A Mego transforma o tripulante em uma figura quase teatral, com roupa real e presença de boneco clássico. A Playmates apresenta o personagem como parte de um sistema de ação, com mais articulações, acessórios e possibilidades de combinação. Nenhuma das propostas elimina a outra; elas registram expectativas diferentes sobre o que um brinquedo de Star Trek deveria oferecer.
Escolher entre uma e outra também pode depender do espaço disponível e do tipo de coleção desejada. Quem pretende reproduzir a estética das prateleiras setentistas talvez prefira a escala maior e os trajes de tecido. Quem deseja montar confrontos entre a Federação, os Klingons e os Borgs provavelmente encontrará na Playmates uma variedade mais ampla e uma compatibilidade melhor entre veículos e personagens.
As duas linhas merecem ser observadas como documentos de suas respectivas épocas. A Mego preserva o encanto artesanal e a simplicidade engenhosa dos bonecos licenciados dos anos 1970; a Playmates registra a expansão da franquia em uma era de coleções extensas, articulação aprimorada e integração com a televisão. Na prática, a diferença essencial está em decidir se a prioridade é a presença histórica de um boneco vestido ou a versatilidade de uma figura plástica feita para formar uma frota inteira.