Cultura pop, HQs e colecionáveis para o público brasileiro

Três décadas de colecionismo na feira mais antiga do Rio de Janeiro

Em uma manhã ensolarada de um sábado qualquer no centro do Rio de Janeiro, longas mesas cobertas com toalhas coloridas se estendem por uma praça conhecida pelos cariocas há gerações. Entre action figures amarelados pelo tempo, álbuns de figurinhas dos anos 1980, HQs da Editora Brasil-América e caixas de Star Wars ainda lacradas, vendedores e compradores se reconhecem com um aperto de mão. É ali, naquele point, que pulsa há três décadas uma das mais longevas feiras de colecionismo da cidade, celebrando em 2024 a marca simbólica de trinta anos de atividade contínua.

A história desse encontro se confunde com a própria consolidação do colecionismo de cultura pop no Brasil. Antes da facilidade das plataformas digitais, antes de grupos de WhatsApp e marketplaces especializados, era em feiras como essa que os apaixonados por brinquedos antigos, revistas raras e memorabilia encontravam suas raridades. Muitos dos itens que hoje ornam estantes e prateleiras em apartamentos da Zona Sul, da Barra e da Tijuca passaram, em algum momento, por uma dessas mesas.

Para entender o que significa essa feira para a cena carioca, é preciso voltar no tempo e acompanhar a trajetória de organizadores, expositores e frequentadores que transformaram um simples encontro de vizinhos em patrimônio afetivo da cidade. O aniversário de três décadas traz à tona lembranças de mudanças no perfil do colecionador, no valor de mercado de certos itens e no próprio formato do evento, que precisou se reinventar mais de uma vez para continuar relevante.

Ao longo das próximas seções, o leitor vai conhecer as origens modestas da feira, os tipos de peças que marcaram época entre os frequentadores, as figuras que ajudaram a moldar a identidade do evento e os planos para uma comemoração à altura da história construída desde o início dos anos 1990.

As origens em uma praça do centro

Tudo começou de maneira despretensiosa, como tantas outras histórias do gênero. Um grupo de cerca de dez entusiastas, em sua maioria adultos jovens que cresceram colecionando HQs, bonecos e miniaturas nos anos 1970 e 1980, resolveu organizar um encontro informal para trocar peças que já não usavam. A ideia inicial era simples: levar uma caixa com itens duplicados, estender uma toalha no chão e ver o que aparecia. O resultado daquele primeiro encontro superou as expectativas dos organizadores.

O local escolhido não foi aleatório. A praça no centro do Rio oferecia fluxo constante de pedestres, fácil acesso por transporte público e uma atmosfera que misturava comércio tradicional e circulação de turistas. Os primeiros frequentadores eram, em grande parte, amigos dos organizadores e amigos de amigos. Mas a notícia de que havia action figures do He-Man sendo vendidos por preços acessíveis se espalhou rapidamente pelo boca a boca.

Nos primeiros anos, o evento não tinha frequência fixa. Acontecia quando alguém do grupo conseguia mobilizar os demais, geralmente uma vez por mês ou a cada dois meses. Com o tempo, a regularidade se impôs. Os sábados passaram a ser o dia oficial, e a feira ganhou um horário, um perímetro demarcado e, principalmente, uma reputação. Colecionadores de outros bairros e até de cidades vizinhas como Niterói e São Gonçalo começaram a marcar presença.

Aos poucos, a feira deixou de ser apenas um ponto de troca entre conhecidos para se tornar um mercado paralelo de itens usados e antigos. Apareceram os primeiros vendedores profissionais, pessoas que viam no evento uma oportunidade de renda e que tratavam a atividade com seriedade, mantendo estoques organizados e catálogos atualizados. Foi nesse contexto que o evento ganhou o perfil que mantém até os dias atuais, com a convivência harmônica entre vendedores ocasionais e comerciantes mais estruturados.

Os anos de ouro dos anos 1990 e 2000

Se os fundadores plantaram a semente, foi nas décadas de 1990 e 2000 que a feira floresceu de verdade. O período coincidiu com a explosão do mercado de colecionismo em escala global, impulsionada por franquias que se tornavam fenômenos de massa. As linhas Star Wars da Kenner, os Transformers da Takara, os G.I. Joe da Hasbro e os bonecos do Batman Returns chegaram ao Brasil por importadores paralelos e, em muitos casos, desembarcaram nas mãos de colecionadores que frequentavam o evento.

As mesas se multiplicaram. O que antes cabia em uma faixa de calçada passou a ocupar quarteirões inteiros. Os preços também começaram a se diferenciar de forma mais clara: itens em embalagem original, lacrados e em estado de conservação impecável passaram a valer muitas vezes o preço de um exemplar solto. Essa hierarquia de valor, que hoje parece natural, foi sendo construída aos poucos, em conversas entre vendedores e clientes que se entendiam sobre o estado de uma bolha, a firmeza de um elástico ou a integridade de uma pintura.

A cena de quadrinhos teve papel central nesse período. Revistas da Marvel e da DC publicadas no Brasil pela Editora Abril nos anos 1970 e 1980, exemplares da Ebal e da própria Brasil-América se tornaram objetos de desejo. HQs danificadas, com lombada amassada ou capa desbotada, eram negociadas por uma fração do valor de uma peça bem conservada. Colecionadores mais pacientes conseguiam fechar negócios vantajosos esperando os vendedores menos avisados aparecerem com caixas vindas de feiras de usados comuns, onde ainda era possível garimpar verdadeiras relíquias.

Foi também a época em que a feira se transformou em ponto de encontro para uma comunidade maior. Surgiram os primeiros clubes informais de colecionadores, organizados por afinidade: um grupo dedicado aos fantoches do Muppet Show, outro aos bonecos da linha Madelman, outro ainda aos robos japoneses da banda Microman. Esses agrupamentos espontâneos davam à feira uma atmosfera de celebração, muito além da simples transação comercial. Encontrar alguém que compartilhava o mesmo entusiasmo por uma franquia específica era, por si só, um motivo para frequentar o evento.

Peças que marcaram época entre os frequentadores

Conversar com quem frequenta a feira há pelo menos duas décadas é ouvir um catálogo oral de relíquias. Cada veterano tem sua lista pessoal de achados inesquecíveis, peças que apareceram uma única vez na mesa de um vendedor e nunca mais voltaram a ser vistas. Entre os itens mais recorrentes nas memórias estão os kits de modelismo da Tamiya e da Hasegawa, réplicas em escala de aviões da Segunda Guerra que no Brasil raríssimas vezes eram comercializadas em lojas tradicionais.

As miniaturas militares também ocupam lugar de destaque. Colecionadores de figuras de chumbo da Starlux, da Elastolin e da Conte Collectors formaram uma clientela fiel ao longo dos anos. Embora o hobby tenha perdido parte do apelo entre as gerações mais novas, o público tradicional continua comparecendo e negociando peças raras por valores que, em alguns casos, surpreendem até os próprios vendedores. A lógica é simples: quanto mais antigo o molde e melhor o estado de conservação, maior a procura.

Não se pode deixar de mencionar o universo das revistas em quadrinhos. As primeiras edições brasileiras do Homem-Aranha, do Capitão América e dos X-Men publicadas pela Editora Abril circulam pelas mesas há anos. Algumas trazem selo de circulação restrita, marcas de leitura ou rasgos que contam histórias próprias. Compradores especializados em avaliar a procedência conseguem distinguir uma edição comum de uma tiragem revisada por pequenas variações na cor da capa ou no tipo de papel utilizado.

E há, claro, o lugar cativo ocupado pelos brinquedos transformáveis. Os primeiros Transformers comercializados no Brasil, vindos de importadores argentinos e chilenos, são disputados em silêncio por adultos que ainda lembram da emoção de abrir uma caixa de Optimus Prime aos oito anos de idade. Bonecos do He-Man com armadura original, acessórios completos e sem sinais de oxidação aparecem eventualmente e desaparecem das mesas em questão de horas. O comportamento dos compradores mais experientes é reservado: eles circulam devagar, observam sem pressa e só revelam interesse quando já avaliaram a peça por completo.

A comunidade que cresceu em torno das mesas

A feira não seria a mesma sem as pessoas que a frequentam. Por trás de cada toalha estendida e de cada caixa de papelão cheia de itens, existem histórias que se entrelaçam há décadas. Alguns vendedores se tornaram figuras conhecidas pelo primeiro nome, tratados com familiaridade por clientes que os visitam todo mês. Há quem diga que o evento funciona como um termômetro social da cidade: em tempos de crise, o movimento cai; em tempos de otimismo, mesas novas aparecem e os preços se ajustam para cima.

As amizades construídas ao redor da feira extrapolam o horário do evento. Grupos de WhatsApp formados nos corredores digitais passaram a organizar encontros paralelos, jantares e até pequenas viagens em busca de liquidações e acervos em outras cidades. Muitos casais se conheceram ali, assim como parcerias comerciais de longo prazo entre vendedores e compradores que confiam uns nos outros o suficiente para fechar negócios com base em uma palavra.

Para os colecionadores mais jovens, ingressar nesse circuito exige disposição e paciência. Os preços muitas vezes não são convidativos, e a sensação de estar em desvantagem diante de veteranos que conhecem o mercado como a palma da mão é comum. Ainda assim, a feira continua sendo uma excelente escola. Aprende-se a reconhecer itens falsificados, a distinguir uma reedição de uma peça original, a negociar sem pressões emocionais e, principalmente, a calibrar as próprias expectativas.

Outro papel relevante da feira é o de preservação da memória material de brinquedos e publicações que, de outra forma, poderiam ser simplesmente descartados. Quantas caixas de action figures esquecidos em porões e armários seriam jogadas fora sem o trabalho de vendedores que mapeiam acervos familiares, resgatam lotes em feiras de bairro e dão nova vida a objetos que, aos olhos de quem não conhece, parecem apenas plástico gasto? A feira cumpre, nesse sentido, uma função quase museológica, embora nenhum dos participantes goste muito do termo.

Desafios ao longo de três décadas

Manter um evento regular durante trinta anos não é tarefa trivial. A feira enfrentou mudanças de endereço, períodos de menor movimento, concorrência com o comércio eletrônico e até episódios de chuva forte que transformaram as calçadas em lama. Cada adversidade exigiu ajustes por parte dos organizadores e dos próprios frequentadores, que precisaram se adaptar a novas realidades sem perder a essência do encontro.

O advento da internet transformou profundamente o perfil das negociações. Nos primeiros anos do Orkut e depois do Facebook, surgiram grupos de compra e venda especializados que, em tese, poderiam ter tornado a feira obsoleta. Na prática, aconteceu o contrário: muitos vendedores passaram a usar a rede como vitrine e a feira como espaço para fechar negócios com clientes que queriam ver e tocar as peças antes de comprar. A lógica presencial, fundada na confiança e na possibilidade de examinar o item, manteve o evento relevante.

Outra questão delicada ao longo das décadas foi a relação com o espaço público. Mudanças na administração da praça, restrições sanitárias durante a pandemia de Covid-19 e oscilações no apoio logístico oferecido pelos órgãos municipais exigiram da organização do evento uma capacidade de negociação constante. Houve temporadas em que a feira chegou a funcionar em formato reduzido, com número limitado de mesas e horário encurtado, para depois voltar ao padrão habitual. A resiliência da comunidade foi, em grande medida, o que garantiu a sobrevivência do evento.

A pandemia, em particular, representou o maior teste das últimas três décadas. Por meses, o encontro foi suspenso e muitos vendedores precisaram buscar alternativas online para escoar seus estoques. Quando a feira foi retomada, em formato gradual, a comoção foi visível: veteranos se abraçaram, novos frequentadores apareceram curiosos para entender o que havia motivado aquele retorno coletivo. A sensação geral era de que algo importante tinha sido preservado contra todas as probabilidades.

Comemoração dos trinta anos e o que vem a seguir

A marca de três décadas será celebrada com uma edição especial da feira, que reúne o que há de mais representativo na história do evento. A organização promete mesas temáticas dedicadas aos brinquedos que foram sucesso nas décadas de 1980 e 1990, espaço ampliado para a troca de HQs raras e uma exposição de miniaturas militares cuidadosamente restauradas por colecionadores veteranos. Haverá ainda uma mesa redonda com alguns dos fundadores, aberta ao público, para registrar em vídeo as memórias dos primeiros anos.

Uma das novidades mais aguardadas é a publicação de um livreto impresso com a linha do tempo da feira, reunindo fotos históricas, listas de preços antigos e entrevistas com personagens que ajudaram a moldar o evento. O material será entregue sem cobrança aos frequentadores no dia da comemoração e também ficará disponível em formato digital para consulta posterior. A iniciativa busca preservar a memória coletiva de um fenômeno essencialmente oral e afetivo.

Para os próximos anos, os organizadores já sinalizam a intenção de criar um programa de mentoria voltado a colecionadores iniciantes, com workshops sobre avaliação de itens, cuidados com conservação e história do mercado de brinquedos no Brasil. A proposta reconhece que o futuro da feira depende da renovação do público e da transmissão do conhecimento acumulado pelos veteranos. A expectativa é de que o aniversário de trinta anos funcione como ponto de partida para uma nova fase, marcada pela continuidade e pela inovação.

A programação completa da comemoração, incluindo datas, locais e atrações confirmadas, está publicada no perfil oficial do evento nas redes sociais, onde são divulgados regularmente os próximos encontros temáticos e as ações especiais previstas para o segundo semestre.