A saga do Coringa na linha DC Multiverse da McFarlane Toys
Quando o colecionador brasileiro abre a caixa de papelão e encontra, sob o blister transparente, o sorriso torto do Príncipe Palhaço do Crime, entende que está diante de mais do que um simples brinquedo. A DC Multiverse, fabricada pela McFarlane Toys desde 2020, transformou a forma como os fãs do universo gráfico da DC Comics adquirem, exibem e revisitam seus vilões favoritos. E nenhum personagem recebeu atenção tão caprichada quanto o Coringa.
A chegada da nova linha coincidiu com o fim da era Mattel, que durante quase duas décadas dominou o segmento com coleções como DC Universe Infinite Heroes, DC Collectibles e o clássico Batman: The Animated Series. Todd McFarlane, criador de Spawn e fundador de sua própria fábrica de action figures em 1994, assumiu o desafio de honrar a herança visual do palhaço de Gotham em escala de 18 centímetros, apostando em escultura digital, articulações reforçadas e uma curadoria obsessiva de acessórios.
A nova fase da McFarlane Toys no universo DC
A trajetória da McFarlane Toys com personagens de super-heróis começou tímida, com figuras do próprio Spawn em poses dinâmicas e detalhes anatômicos quase realistas. O salto para o território das grandes editoras aconteceu de forma gradual: Spawn dividiu prateleiras com edições especiais do Homem-Aranha pela linha Marvel Legends, ainda como fabricante terceirizada, até que McFarlane firmasse contratos próprios com as casas de Superman e Batman.
A aquisição da licença da DC, no final de 2019, foi recebida com ceticismo por parte do mercado, acostumado ao acabamento característico da antiga parceira. A resposta veio em forma de teaser cinematográfico veiculado no Instagram oficial da marca, mostrando um busto em close extremo: era o Coringa de Jack Nicholson em Batman, o longa de Tim Burton de 1989. A imagem viralizou entre grupos de colecionadores e consolidou o antagonista como a peça emocional de lançamento.
Logo no primeiro ano de operação, a McFarlane também investiu pesado em pesquisa documental, consultando acervos originais da Warner Bros. para capturar texturas de tecido, sujidades e detalhes de maquiagem. Foi assim que cada peça lançada passou a carregar pequenas doses de fidelidade cenográfica, algo raramente visto em brinquedos da concorrência direta.
O Coringa dos quadrinhos clássicos entra no catálogo
Ainda em 2020, três versões baseadas em HQs históricas foram confirmadas nos anúncios iniciais. A primeira reinterpretou a aparência criada por Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson na Detective Comics #168, de 1957, com o terno roxo original e o tradicional baralho. A segunda recriou o visual do arco A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, lançado em 1988 pelo selo Vertigo, com o colete lilás, a camisa verde-claro e o sorriso tenso do maníaco.
A terceira peça resgatou O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, numa releitura fiel das páginas publicadas em 1986. Esse Coringa, com o corpo retorcido e a cicatriz larga cortando o rosto, tornou-se rapidamente um dos itens mais disputados em sites de revenda, justamente por traduzir para o plástico a brutalidade da graphic novel. A McFarlane caprichou no recorte da escultura facial, deixando visíveis as costuras e o contraste de pele entre os tons pálido e arroxeado.
Mais adiante, outras encarnações originárias das HQs foram somadas ao catálogo, como a versão Três Coringas, escrita por Geoff Johns e desenhada por Jason Fabok, que estreava a silhueta do palhaço com três identidades distintas numa só edição de 2020. Cada personalidade ganhou figura específica, com cores de cabelo, expressões e figurinos diferentes, ampliando a variedade para os colecionadores mais completistas.
As interpretações cinematográficas ganham escala sete polegadas
A inclusão de atores icônicos sempre foi um campo minado para linhas de brinquedos por conta das exigências de licenciamento de imagem. A McFarlane driblou essa dificuldade ao trabalhar diretamente com a Warner Bros., utilizando figurinos de arquivos oficiais das produções. O Coringa de Jack Nicholson foi o primeiro a ganhar versão, com cachecol verde, colete roxo e o sorriso congelado em pose imóvel.
Logo na sequência, veio a recriação de Heath Ledger baseado em O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. A figura, lançada em 2022, trouxe o terno riscado preto, o colete curto, além do baralho ensanguentado e a faca estilizada como acessório. O cuidado com a maquiagem borrada e o cabelo bagunçado rendeu comparações elogiosas com o trabalho do ator, e elevou o nível de detalhes para personagens baseados em live action.
Mais recentemente, a interpretação de Joaquin Phoenix em Joker, de Todd Phillips, também ganhou sua figura, com o traje de palhaço de festa, a máscara de Bruce e o sapato de dança que protagoniza a famosa cena da escadaria. A versão chegou em wave dedicada ao filme e se tornou peça obrigatória para os colecionadores que exploram a filmografia do vilão em suas estantes.
Para fechar o ciclo, peças promocionais vindouras de Coringa: Delírio a Dois também entraram na lista de rumores, com direito a teasers em fóruns especializados e fanarts que imaginam o figurino amarelo de Phoenix para a sequência musical.
A fidelidade com o universo dos games
A trilogia Arkham, desenvolvida pela Rocksteady Studios entre 2009 e 2015, definiu visualmente uma geração inteira de jogadores para o Homem-Morcego e seus antagonistas. O Coringa virtual sempre foi destaque em Batman: Arkham Asylum e Arkham City, com pele desbotada, sorriso perverso e olhos verdes brilhantes modelados em alta definição.
A McFarlane reproduziu essa estética em duas waves distintas. A primeira, com o terno puído e gravata frouxa, apostou na articulação dupla do pescoço para reproduzir poses de confronto com o protagonista. A segunda wave trouxe o visual de Batman: Arkham Knight, com costuras reforçadas, detalhes de ferida na bochecha e o cartão de baralho dobrado. Ambas foram vendidas em embalagens com a arte original do jogo reimpressa em alta resolução.
Mais um capítulo recente veio de Batman: Arkham Origins, com o Coringa jovem, ainda com traços de Mark Hamill, dublador histórico da animação dos anos 90. A figura marcou a estreia da chamada versão Cold Cold Heart, com cachecol, luvas e o sorriso tímido do início da carreira criminosa. O contraste entre o visual quase inocente e a mania latente foi bem capturado na expressão facial da escultura.
Variantes cobiçadas e edições de colecionador
O lado obsessivo do colecionador sempre foi alimentado por tiragens limitadas, erros de fábrica e repinturas variantes. A McFarlane soube explorar esse filão com waves exclusivas das redes Target, Walmart e das convenções anuais como San Diego Comic-Con e New York Comic Con. O Coringa ganhou várias colorways diferenciadas, incluindo a versão metálico em roxo e dourado que homenageia diretamente a primeira aparição do personagem nas bancas americanas.
Outra raridade procurada é a chamada Platinum Edition, com acabamento cromado exclusivo, normalmente lançada em tiragem pequena e embalada em caixa preta com foil prateado. Há ainda a figura com cabeça removível revelando o rosto desfigurado por trás, inspirada no arco Batman: Terra de Ninguém, de 1999. As mãos-bônus com cartas marcadas, bisturi e dinamite compõem o set mais completo para cenas de encenação em prateleira.
O palhaço também estrela um dos pacotes Build-a-Figure da linha, o chamado Clownhunter, personagem secundário introduzido em Batman: O Cavaleiro Branco, de Sean Murphy. Quem comprar as ondas dos vilões relacionados recebe a cabeça e os membros para completar o caçador de palhaços ao final do período de promoção. Esse esquema incentiva a compra casada e reforça o caráter colecionável do programa.
A arte de embalagem e os cards ilustrados
Um dos acenos mais marcantes da DC Multiverse para o público exigente é o conjunto de cards ilustrados distribuídos aleatoriamente nas caixas. Cada pacote traz uma ou mais cartas no formato colecionável, com artwork original de artistas da própria DC, reimpressões históricas e renders tridimensionais das próprias figuras.
Artistas como Jim Lee, Todd McFarlane, Greg Capullo e Clayton Crain já contribuíram com retratos do Coringa para o programa. As artes costumam homenagear capas clássicas do Homem-Morcego ou reinterpretar cenas de Joker: Cavaleiro Branco em cores metálicas. A inclusão dessas peças no blister deu à linha um verniz de revista de quadrinhos de luxo, transformando cada aquisição numa pequena exposição portátil.
A embalagem em si evoluiu ao longo dos anos. A primeira geração usava caixa de papelão cinza com janela recortada em forma de máscara. As ondas mais recentes adotaram pegada visual mais sóbria, com fundo preto, moldura prateada e o logo da DC Multiverse centralizado. Essa mudança beneficiou a exposição em prateleiras iluminadas, onde a silhueta do Coringa se sobressai em meio a outros personagens.
O impacto do mercado nacional e os pontos de dificuldade
No Brasil, a chegada da linha encontrou uma comunidade de colecionadores já organizada em fóruns como Coleciona-DC, lojas de HQs nos shoppings e grupos de Telegram especializados em pré-venda. A oferta oficial chegou por meio da Toymania, Galápagos, Zuppler e importadoras menores, mas o volume de lançamentos importados via Estados Unidos e Ásia continuou elevado por causa da defasagem cambial e dos lotes exclusivos de fora.
Os preços praticados nos lançamentos costumam variar entre 119 e 199 reais, dependendo do personagem e da quantidade de acessórios. O Coringa, por estar entre as figuras mais requisitadas, frequentemente ultrapassa essa média mesmo no lançamento. Em sites como Mercado Livre e Enjoei, versões antigas já batem marcas de quatro dígitos, especialmente quando lacradas e com o card ilustrado.
Muitos colecionadores brasileiros recorrem ao chamado serviço de group buy, em que se juntam para importar caixas inteiras diretamente da McFarlane ou de parceiros como BBTS e Dorkside Toys. O processo reduz o custo unitário, mas exige paciência com a burocracia dos correios e o pagamento de impostos. A persistência desses esquemas mostra como o personagem continua sendo o motor emocional do hobby no país.
Para acompanhar com mais precisão o que chega em cada wave e quais variantes valem a pena entrar em lista de espera, vale ficar atento às lives de pré-venda da Toymania nas próximas sextas-feiras, quando costumam abrir encomendas com desconto para retirada em loja física e isenção de frete nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro.