A linha de action figures do Blade Runner que quase chegou ao Brasil
Em 1982, Ridley Scott apresentou ao mundo um futuro sombrio de chuva ácida, letreiros de néon refletidos em asfalto molhado e humanoides que questionavam a própria condição humana. O longa ambientado em Los Angeles 2019 conquistou uma legião de fãs fascinados pela estética cyberpunk e pela melancolia urbana de Rick Deckard, o caçador de replicantes em uma megalópole decadente. Para o público brasileiro daquela década, no entanto, o fascínio vinha acompanhado de uma frustração recorrente nas bancas e lojas de brinquedos: as figuras baseadas na franquia simplesmente não eram encontradas nas prateleiras nacionais, nem mesmo nas grandes cidades do eixo Rio-São Paulo.
Décadas se passaram e a saga inspirada na obra de Philip K. Dick continuou gerando produtos em todo o mundo, da Kenner à Hot Toys, passando por tentativas caseiras e edições limitadas que atravessaram fronteiras. No Brasil, cada novo lançamento virava um pequeno evento para um grupo seleto de colecionadores acostumados a garimpar em sebos, feiras e pequenas importadoras. A história dessa caça aos replicantes em forma de brinquedo mistura paixão cinéfila, obstáculos alfandegários e uma cena de memorabilia que cresceu mesmo sem o suporte oficial das grandes redes varejistas.
A origem cinematográfica e o sonho dos brinquedos
A produção original contava com um cenário monumental inspirado nos designs de Syd Mead, com veículos voadores, esculturas gigantes e poluição luminosa por todos os lados. Esse universo visual tão marcante parecia naturalmente desenhado para ganhar versões em escala reduzida. Durante as gravações, diversos protótipos de veículos e bonecos foram construídos pelos departamentos de arte, e parte desse material acabou influenciando produtos licenciados que surgiram no rastro do filme. Os fãs viam nas revistas de cinema da época as fotos promocionais das figuras e sonhavam com o dia em que poderiam colocar um Deckard de uniforme de couro sobre a estante de troféus ao lado de seus Darth Vader, Capitão Kirk e demais ícones pop.
A expectativa era justificada, porque o lançamento do filme aconteceu em uma fase de ouro para o mercado de action figures. Star Wars já havia inaugurado a era moderna dos brinquedos colecionáveis com a Kenner, e estreias como Indiana Jones, G.I. Joe e os primeiros Transformers se beneficiavam de acordos comerciais firmados antes mesmo da chegada aos cinemas. O departamento de licenciamento do longa de Scott tratou de negociar com fabricantes americanos e japoneses, buscando capitalizar a estética única da película junto ao público jovem. Muitos detalhes das negociações permaneceram nebulosos, mas o resultado concreto foi uma linha modesta, voltada principalmente para o mercado norte-americano e para alguns poucos países europeus.
A primeira tentativa da Kenner nos anos 1980
A Kenner, fabricante que havia construído seu nome com a saga de George Lucas, chegou a desenvolver uma linha de action figures dedicada ao filme noir futurista. O projeto previa figuras articuladas dos personagens principais, incluindo o próprio Deckard, Roy Batty, Pris, Rachael, Leon e Zhora, além do policial Gaff e de um androide genérico em escala de quinze centímetros. Os cardbacks traziam artes originais inspiradas nas cenas mais marcantes do filme, com degradês de cor que imitavam os letreiros luminosos da cidade. Pouquíssimos exemplares foram efetivamente distribuídos, e a tiragem inicial acabou reduzida a um número tão pequeno que hoje essas peças são consideradas raridades absolutas entre colecionadores de brinquedos vintage.
No Brasil, praticamente nenhum exemplar chegou às mãos dos fãs por vias oficiais. A indústria nacional de brinquedos daquela época, ocupada com títulos próprios como Falcon, Calunga e até algumas tentativas locais de figuras inspiradas em super-heróis, não tinha estrutura para absorver uma licença estrangeira tão específica. Os poucos bonecos existentes em território brasileiro cruzaram a fronteira vindos de viagens ao exterior, pequenas importadoras que operavam no Paraguai ou em Miami, e trocas realizadas entre colecionadores das grandes capitais. Cada aparição pública dessas figuras virava um acontecimento, registrado em fotografias amareladas que ainda circulam em fóruns especializados e álbuns de família.
A barreira da importação e o mercado paralelo
Durante os anos 1990, a abertura econômica trouxe consigo uma enxurrada de produtos importados, mas também novas regras tributárias que tornavam a entrada de brinquedos colecionáveis um processo burocrático e caro. Alíquotas elevadas, exigências de notas fiscais específicas e a necessidade de pagamento antecipado de impostos desestimulavam distribuidoras menores de apostarem em linhas muito nichadas. Enquanto franquias como Star Trek, G.I. Joe e Transformers conseguiam conquistar algum espaço nas redes de magazines graças a vendas consistentes ao longo de anos, o universo noir de Los Angeles permanecia invisível para o grande varejo nacional.
A saída encontrada por muitos colecionadores foi recorrer ao circuito paralelo, formado por sebos, feiras de troca e pequenos sites de venda direta que começavam a surgir na então nascente internet brasileira. Foi nesse ambiente que circularam as primeiras importações clandestinas, conhecidas pelos frequentadores como trouxinhas, pacotes vindos dos Estados Unidos em envelopes almofadados, contendo figuras muitas vezes sem caixa, compradas em liquidações de lojas do interior americano. Muitos desses bonecos apresentavam marcas de uso, tinta descascada e articulações soltas, mas para o colecionador brasileiro representavam troféus de uma jornada quase heróica. As conversas em listas de discussão e fóruns da época giravam em torno de dicas para encontrar exemplares seminovos, identificar falsificações e negociar fretes compartilhados.
O renascimento com Blade Runner 2049
O lançamento da sequência dirigida por Denis Villeneuve, em 2017, reacendeu o interesse internacional por todo o material ligado ao universo de Scott. Fabricantes de diferentes portes anunciaram novas linhas de figuras articuladas, com destaque para a Hot Toys, que produziu edições premium do oficial K, do Deckard envelhecido e da controversa Joi em versão miniaturizada. A Medicom, a Sideshow, a Quantum Mechanix e a linha ReAction da Super7 também entraram no mercado com propostas variadas, das figuras de quinze centímetros totalmente articuladas até as minimalistas em escala menor, com poucas articulações e tampinhas nas costas.
A onda de lançamentos teve reflexos tímidos, porém notáveis, no Brasil. Algumas lojas online começaram a oferecer esses itens com importação legalizada, embora os preços finais assustassem até o colecionador mais dedicado. Houve ainda casos curiosos de executivos de marcas brasileiras viajando ao exterior e trazendo unidades reservadas para eventos privados, distribuição direta entre amigos e clientes preferenciais. As redes sociais ajudaram a criar pequenas comunidades locais, com perfis dedicados exclusivamente à saga no Instagram, canais de YouTube exibindo unboxings de figuras caríssimas e grupos de Telegram negociando lotes completos a preços que variavam conforme o câmbio do dia.
Os fabricantes premium e a febre das edições especiais
A tendência mundial da moda colecionável favoreceu o surgimento das chamadas edições especiais, com acabamento fotográfico, tecidos reais, cabeços esculpidos à mão e detalhes minuciosos em armas e acessórios. Os action figures dessa categoria deixaram de ser brinquedos para se tornarem objetos de decoração disputadíssimos, protegidos em caixas de acrílico e expostos em prateleiras iluminadas por LEDs específicos. Fabricantes como Threezero, Mafex e Hot Toys transformaram a compra dessas peças em verdadeiras experiências, com pré-vendas que se esgotam em minutos e listas de espera que atravessam continentes.
Para acompanhar esse mercado aquecido, plataformas como noticiários do setor costumam anunciar lançamentos, trazer análises detalhadas e realizar entrevistas com escultores especializados em figuras premium. No Brasil, a paixão por essas edições de luxo se mistura à tradição de preservar embalagens originais, manuais e até a fita adesiva original que lacra a caixa. Existe até mesmo um mercado paralelo de laqueadores profissionais, especializados em restaurar blisters amarelados e devolver o brilho original a cardbacks que perderam a cor com o tempo. Cada peça resgatada dessas oficinas é vista como uma vitória particular contra o esquecimento.
O papel dos seboleiros e feiras especializadas
Em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba, surgiram ao longo das últimas décadas feiras e exposições dedicadas exclusivamente a memorabilia e brinquedos antigos. A Brasil Comic Con, a Comic Con Experience, eventos em shoppings e encontros menores em centros culturais passaram a abrigar mesas específicas para action figures de todas as origens. Nessas ocasiões, não é raro encontrar uma vitrine improvisada expondo uma figura rara do detetive Deckard ao lado de Capitão América, Darth Vader e Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro.
O papel dos seboleiros nesse circuito é fundamental. Muitos deles sabem de cor o nome do freguês interessado, o tamanho da estante disponível em casa e até o nível de completismo desejado. Quando surge uma figura ligada ao universo de Scott, a notícia se espalha rapidamente por WhatsApp, com direito a áudios descritivos detalhando o estado da pintura, a presença de manchas nas costas e a originalidade da caixa. É nessas pequenas redes de confiança que itens avaliados em milhares de reais encontram novos donos, sem nunca terem passado por uma grande loja ou marketplace oficial.
Caixas lacradas e raridades que atravessam o Atlântico
Mesmo com todos os obstáculos, histórias de exemplares lacrados que aportaram no Brasil continuam a fascinar quem está de fora da cena. Há relatos de colecionadores que encomendaram durante viagens à Europa ou aos Estados Unidos lotes completos das linhas da Kenner original, pagando à época valores módicos que hoje valeriam pequenas fortunas. Outros aproveitaram mudanças internacionais, casamentos com estrangeiros e estadias profissionais no exterior para incrementar seus acervos com figuras trazidas em malas extras, sempre protegidas por camadas de plástico bolha e fita adesiva cruzando o oceano Atlântico.
O preço de mercado segue uma lógica peculiar. Figuras vendidas originalmente por poucos dólares podem alcançar cifras estratosféricas quando completadas com caixa original, blister intacto e tags de fábrica. A regra vale para quase todas as franquias cultuadas, mas no caso da saga urbana de Scott a valorização é ainda mais acentuada pela relativa escassez. Quem guarda uma caixa lacrada da Kenner em bom estado possui hoje um documento raro, espécie de cápsula do tempo que conecta os dias de chuva ácida de Los Angeles à realidade tropical das vitrines brasileiras.
O que permanece depois de tantas décadas é a certeza de que cada figura do policial Gaff ou da replicante Pris preservada em uma estante brasileira funciona como prova material de que o mercado paralelo, a persistência dos seboleiros e a dedicação dos colecionadores nacionais foram capazes de escrever um capítulo próprio dessa história. Mesmo sem distribuição oficial consistente, o universo de neon, chuva e dilemas éticos encontrou caminho nas prateleiras do país através de mãos pacientes, carteiras persistentes e amizades construídas em torno de uma paixão compartilhada pela ficção científica.