Cultura pop, HQs e colecionáveis para o público brasileiro

As action figures mais bizarras já lançadas pela DC Comics

Cada geração de colecionadores guarda na memória aquele boneco que parecia ter saído de um pesadelo plástico. Antes das linhas minimalistas e dos licenciamentos calculados ao milímetro, a indústria de brinquedos via o universo dos super-heróis como um laboratório aberto, onde qualquer ideia parecia válida. A DC Comics, ao longo de décadas, ofereceu material mais do que suficiente para alimentar esse laboratório de estranhezas.

A trajetória editorial da editora é pontuada por reviravoltas visuais, e o mesmo instinto que criou personagens excêntricos acabou contaminando as prateleiras das lojas de brinquedos. Figuras baseadas em tramas passageiras, roupas alternativas aparecidas em arcos curtos e até piadas internas com os próprios heróis ganharam versões tridimensionais em plástico pintado. O resultado foi um catálogo que mistura nostalgia e assombro.

Os anos 1970 e 1980 representam o coração dessa fase experimental. A Mego Corporation reinava absoluta nos Estados Unidos enquanto fábricas locais reinterpretavam os personagens com soluções que variavam entre o criativo e o completamente insano. Bonecos com capas estranhas, acessórios improváveis e proporções duvidosas se acumulavam em caixotes de papelão, prontos para atravessar décadas até chegarem às mãos de colecionadores cada vez mais clínicos.

Hoje essas peças funcionam quase como documentos antropológicos. Conferem ao colecionador a possibilidade de tocar em escolhas de design que jamais seriam aprovadas por um comitê moderno de licenciamento. Estudá-las é revisitar um período em que a fronteira entre merchandising e expressão artística era praticamente invisível.

Surf, disco e praia — as estranhezas de Batman nos anos 70

A Mego aproveitou a febre cultural do início dos anos 1970 para vestir o Cavaleiro das Trevas com figurinos que jamais pisaram nos quadrinhos. Surgiu assim o Surf's Up Batman, com maiô floral e prancha branca, mergulhado numa fantasia de Malibu que contrastava violentamente com a reputação sombria do personagem. A peça tinha articulações precárias e um sorriso estampado na face que destoava de qualquer arco narrativo habitual.

Pouco depois, a mesma fábrica apostou em variações como o Disco Batman e o Beach Bunny Batman, evidências de que ninguém sabia onde terminava o herói e onde começava a balada. O primeiro vinha com calça boca de sino e suéter de lã; o segundo, de maiô amarrado, parecia capturado direto de uma festa à beira da piscina. O fascínio dos colecionadores modernos por esses itens reside justamente nessa quebra total de expectativa.

Encontrar essas figuras em estado razoável hoje exige paciência quase monástica. Os corpos eram feitos de um plástico que amarelecia com facilidade e as roupas em tecido se deterioravam a cada exposição ao sol. Peças completas, com todos os acessórios originais, alcançam preços que rivalizam com itens muito mais nobres do universo DC.

Superman Tarzan e a família selvagem de Krypton

A Mego também foi responsável por uma das fusões mais desconcertantes já vistas no universo dos super-heróis. Em 1972, a empresa lançou o Superman Tarzan, um boneco articulado que mostrava o Homem de Aço descalço, com tanga de couro, prontinho para balançar-se entre cipós. A peça era embalada junto com um facão de plástico e uma caveira de jipe com capota removível, num arranjo gráfico que misturava metrópoles e florestas equatoriais.

A origem dessa figura está num esquecido arco de aventuras publicado pela própria DC na era clássica, mas a versão em brinquedo era mais deliberadamente fantasiada. O resultado desagradou tanto aos admiradores do kryptoniano quanto aos fãs do rei da selva. Mesmo assim, o Superman Tarzan se tornou um clássico entre colecionadores que prezam justamente pelas falhas de cálculo editorial.

A mesma lógica gerou outros primos esquisitos de Krypton, como o Magic Superman — versão em escala menor baseada na identidade do mágico Mistério — e um bizarro Super Hippie lançado em fins dos anos 1960 numa tentativa malfadada de atrair o público contracultural. Todas essas variações seguiram a cartilha de superdimensionar a cabeça para acomodar uma expressão facial mais marcante, criando a estética inconfundível da Mego.

Aquaman de laranja — o figurino que ninguém pediu

Poucos personagens da DC Comics foram tão maltratados pelo departamento de design de uma fábrica de brinquedos quanto o Rei de Atlantis. Nos anos 1970, a Mego introduziu um Aquaman vestido com um macacão cor de laranja berrante, luvas verdes e cabelo esculpido em ondas dramáticas. O visual lembrava mais um salva-vidas de posto de gasolina do que um soberano submarino, e gerou décadas de piadas em fóruns colecionadores.

A peça se popularizou justamente porque incorporava de forma literal os trajes alternativos que o personagem usou em algumas aventuras menos conhecidas dos quadrinhos. O boneco vinha com tridente dourado, base de plástico simulando água e um anel que devia brilhar no escuro, mas geralmente falhava em poucas semanas. Era um presente mirabolante para uma criança e um pesadelo para os pais que precisavam organizar a caixa de brinquedos.

Décadas depois, a Mattel relançou uma versão modernizada com o mesmo figurino laranja, confirmando que o estranhamento atravessou gerações. Colecionadores obstinados costumam manter a peça original em sua caixa, protegidas da luz, transformando o item num manifesto involuntário do absurdo.

Batman entregador de pizza — a linha italiana que rompeu a lógica

Em 1989, a fábrica italiana Aurora surpreendeu o mercado europeu ao lançar uma linha intitulada Pin Up Batman, na qual o herói aparecia em situações cotidianas tingidas pelo humor pastelão. A peça mais famosa mostrou Bruce Wayne vestido com uniforme de entregador de pizzas, segurando uma caixa aberta com três miniaturas em massa de modelar. Era uma homenagem ao estilo dos anos 1950 norte-americanos, executada com o exagero cômico típico da publicidade italiana.

A linha incluía outras situações igualmente improváveis: Batman fazendo compras no supermercado, malhando em academia e até tomando sol numa espreguiçadeira. Os bonecos tinham cerca de 30 centímetros, articulação limitada e pintura que desbotava com facilidade, mas carregavam uma identidade visual marcante, com cores vivas e gestos caricatos. Muitos exemplares chegaram ao Brasil via importadores independentes no início da década de 1990.

Embora pouco distribuídos no mercado americano, esses itens são muito cobiçados por colecionadores brasileiros e portugueses, acostumados a encontrar versões esquisitas em sebos e feiras de usados. A fórmula parece clara: quanto mais deslocado o personagem estiver do contexto habitual, maior o desejo de posse.

Os bonecos falantes da Power Records e o som que nunca existiu

A Power Records, subsidiária da Power Merchandisers, apostou numa proposta radical no início dos anos 1970: lançar action figures da DC Comics acompanhadas de um disco flexível que trazia falas e sons dos personagens. As caixas mostravam o Batman, o Superman, o Aquaman e a Mulher-Maravilha com expressões teatrais e capas capeando o vento, prometendo uma experiência auditiva imersiva. Na prática, o som era apenas uma faixa monótona em que o herói repetia o próprio nome por cerca de três minutos.

A produção era pequena e muitos lotes nunca saíram dos Estados Unidos, mas algumas unidades migraram para a América do Sul, especialmente para a Argentina e o Uruguai. Os bonecos tinham corpo articulado em plástico rígido e cabeça em vinil, com cerca de 13 centímetros. O mecanismo sonoro ficava num cilindro embutido no abdômen, acionado por uma alavanca lateral — uma engenhoca tão sensível que raramente sobrevivia a quedas.

Hoje essas figuras são caçadas por colecionadores interessados justamente pela precariedade mecânica. Quem consegue colocar o dispositivo para funcionar transforma a peça numa raridade interativa, ainda que o conteúdo sonoro provoque mais riso do que admiração.

Lili Ledy e Centinela — os bootlegs mexicanos da DC

O mercado paralelo mexicano produziu duas coleções que se tornaram folclore entre colecionadores sul-americanos. A Lili Ledy e a Centinela operaram entre fins dos anos 1970 e a primeira metade da década de 1980, recriando personagens da DC com soluções de baixo custo. Os bonecos da Lili Ledy vinham com os mesmos moldes da Mego, mas com pintura descuidada, olhos mal alinhados e logotipos que lembravam vagamente os originais. A Centinela, por sua vez, ousou um pouco mais e introduziu variações cromáticas jamais vistas em outros mercados.

O Batman da Lili Ledy tinha o bat-símbolo do lado direito do peito em vez do esquerdo, e o capuz frequentemente apresentava furos que permitiam ver o rosto pintado por baixo. Os Superamigos ganharam versões mexicanas com uniformes bicolores e expressões ferozes, quase villânicas. Tais escolhas, embora resultantes do descuido fabril, foram absorvidas pelo imaginário colecionador como características autênticas.

Por ter circulado em menor escala e em regiões específicas, esse material se tornou objeto de desejo em outros países. Leilões online costumam apresentar disputas acirradas por exemplares completos, e as diferenças entre lotes viraram assunto de estudo para especialistas que se dedicam a catalogar todas as variações cromáticas.

Apache Chief, Black Vulcan e os personagens politicamente confusos das Super Powers

A linha Super Powers, produzida pela Kenner entre 1984 e 1986, é frequentemente lembrada por figuras clássicas como Superman e Batman. Entretanto, foram justamente os personagens secundários que causaram os estranhamentos mais duradouros. Apache Chief chegou ao mercado como um herói nativo americano baseado no conceito de Alongamento, mas a execução visual apostou numa estética que misturava cocar estilizado, colete com franjas e uma expressão quase imóvel.

O caso mais controverso foi o Black Vulcan, apresentado como versão afrodescendente do Flash. O personagem teve vida editorial curta e ganhou o boneco apenas por pressão de licenciamento. Os traços faciais eram grosseiros, a roupa se resumia a um macacão amarelo com raios estilizados e o boneco tinha articulações mínimas. Colecionadores contemporâneos relutam em exibir a peça por considerarem-na uma representação problemática, e debates sobre o tema se espalham por fóruns e podcasts.

A última leva da linha ainda incluiu Samurai Batman e Mystic Superman, derivações temáticas que pareciam ter sido arrancadas de fases aleatórias dos quadrinhos. Cada uma delas serve como testemunha silenciosa da urgência criativa de uma época em que a concorrência com a Marvel cobrava variedade a qualquer custo.

Quem guarda uma dessas peças na estante acaba assinando, sem perceber, um pacto silencioso com a história do colecionismo. Cada boneco raro dessas é uma cápsula do tempo que sobreviveu ao tempo, à poeira e ao esquecimento, e que ainda provoca o mesmo sorriso torto de quando foi visto pela primeira vez numa caixa de papelão amassada. O melhor uso que se pode fazer delas, hoje, é tratá-las como documentos afetivos, mantendo fichas técnicas, fotos e procedência arquivadas para que o próximo colecionador possa continuar o trabalho de mapear as loucuras que a DC, inadvertidamente, ajudou a eternizar em plástico.