Cultura pop, HQs e colecionáveis para o público brasileiro

Thor em miniatura: a evolução das action figures do Deus do Trovão

Poucos personagens dos quadrinhos resistem ao tempo com a força de Thor. O Deus do Trovão atravessa gerações desde sua primeira aparição em Journey into Mystery, em 1962, e sua imagem foi reinterpretada de diferentes formas nas páginas, no cinema e, principalmente, nas prateleiras dos colecionadores. As action figures do herói funcionam como pequenos museus da cultura pop: cada boneco guarda um pedaço da moda, da tecnologia de plásticos e do gosto visual de sua época.

No Brasil, o colecionismo de figuras do Thor encontrou terreno fértil entre as décadas de 1980 e 1990, quando as bancas e lojas de brinquedos recebiam caixas vindas principalmente da indústria norte-americana. Fabricantes como Mego, Kenner e ToyBiz moldaram a infância de muitos leitores de gibis, criando uma memória afetiva que ainda hoje orienta o olhar dos colecionadores adultos. Entender como essas peças mudaram de visual ao longo das décadas é mergulhar na evolução do design de brinquedos e, ao mesmo tempo, na história do próprio personagem.

Este percurso atravessa seis décadas de produção, das figuras gigantes com articulações limitadas até os modelos super-articulados atuais. Ao longo do texto, vamos observar as mudanças no capacete alado, no martelo Mjolnir, nas capas, nas cores do uniforme e na própria proporção dos bonecos. Cada geração deixou marcas no imaginário e abriu caminho para a próxima.

Os anos 60 e a primeira geração de figuras do Deus do Trovão

A primeira action figure oficial do Thor chegou ao mercado norte-americano em 1966, produzida pela Hasbro como parte da linha Marvel Super Heroes. Tratava-se de um boneco de 30 centímetros com apenas cinco pontos de articulação — pescoço, ombros e pernas —, pintado em tons vibrantes de azul e vermelho, com um elmo alado de plástico rígido e um martelo Mjolnir esculpido em peça única. O rosto do personagem era uma caricatura simpática, com olhos azuis enormes e um sorriso meio atrapalhado, bem distante da severidade nórdica que os quadrinhos de Jack Kirby construíam.

Esse primeiro Thor inaugurou escolhas que se tornariam marcantes nas décadas seguintes. O contraste entre o azul da calça e o vermelho da capa, os discos circulares no peitoral e o elmo com pequenas asas laterais permaneceram como assinatura visual do personagem. Mesmo com a simplicidade técnica da época, a peça já demonstrava a importância do figurino para o reconhecimento imediato do herói. Colecionadores brasileiros que não viveram aquela geração costumam descobrir esse modelo em mostras de brinquedos vintage, onde ele costuma ser exibido ao lado de outras relíquias da chamada era de prata dos quadrinhos.

A peça original vinha com a capa fixa ao torso, sem articulações adicionais. Isso limitava os movimentos em cenas de ação, mas conferia à figura uma presença forte na estante. Para os padrões atuais, o design parece rudimentar; ainda assim, atendia perfeitamente ao público infantil da época, que buscava um brinquedo resistente e com cores vivas para brincar ao ar livre.

Dos anos 70 aos 80: Mego, Kenner e a consolidação do herói articulado

A década de 1970 pertenceu, em grande parte, à Mego Corporation. A empresa americana lançou o boneco do Thor dentro da famosa coleção World's Greatest Super-Heroes, em escala de oito polegadas. Esse modelo ganhou um rosto mais esculpido, com detalhes no elmo e na barba loira do personagem. A capa passou a ser uma peça de tecido removível, presa por uma coleira plástica no pescoço, o que permitia uma mobilidade mínima, mas representava um salto em relação ao modelo anterior. O martelo Mjolnir era esculpido em plástico cinza com o cabo marrom, buscando simular madeira e metal.

No Brasil, esses bonecos da Mego chegaram por importação e se tornaram itens cobiçados. Muitas crianças brasileiras conheceram Thor por meio dessa versão de oito polegadas, mesmo que o personagem ainda fosse pouco conhecido nas bancas nacionais. As figuras eram vendidas em blister com fundo ilustrado, mostrando o herói em poses heroicas, e traziam uma pequena biografia na parte traseira da embalagem. Esses textos curtos funcionavam como introdução ao universo Marvel para crianças que talvez nunca tivessem lido um gibi do Deus do Trovão.

Nos anos 1980, a Kenner assumiu a licença e produziu novas figuras em duas linhas distintas. A coleção Secret Wars, de 1984, trazia Thor em escala de quatro polegadas com articulações limitadas, voltada para o público infantil. Poucos anos depois, a Kenner apresentou a linha Super Powers, que elevou o nível de detalhamento e introduziu o conceito de cape com clip — um pequeno clipe de plástico que prendia a capa aos ombros do boneco, evitando que ela se soltasse durante a brincadeira. O martelo continuou como acessório fundamental, mas agora vinha acompanhado de um pequeno raio trovejante esculpido em plástico transparente.

A revolução ToyBiz e os anos 1990

A chegada da ToyBiz ao cenário Marvel transformou o mercado de action figures. Os primeiros modelos da empresa tinham cerca de cinco polegadas, custo acessível e uma variedade de poses que encantavam o público infantil. No Brasil, esses bonecos da ToyBiz foram distribuídos pela Playtoy e outras importadoras, popularizando ainda mais o personagem entre os jovens leitores que acompanhavam os títulos nas bancas brasileiras.

O salto técnico veio com a série Marvel Showdown, no final dos anos 1990, que trouxe bonecos maiores e mais detalhados, próximos da escala de seis polegadas. Esses modelos apresentavam proporção melhor entre cabeça e corpo, articulação nos cotovelos e joelhos, e detalhes de pintura muito mais refinados. Foi nessa fase que Thor ganhou versões com armadura pesada, refletindo os arcos mais densos dos quadrinhos daquela época, escritos por autores como Walt Simonson.

Outra novidade foi a inclusão de acessórios temáticos. Além do tradicional martelo Mjolnir, os colecionadores passaram a receber versões alternativas como o cinturão Megingjord ou pequenas joias que representavam partes do uniforme. O elmo alado também ganhou variações: em algumas edições, as asas eram maiores e pontiagudas, evocando os designs clássicos, enquanto outras versões apostavam em ângulos mais discretos. Essas escolhas revelavam como o designer do brinquedo lia os quadrinhos e reinterpretava o personagem para o formato tridimensional.

Marvel Legends e a era da super-articulação

A linha Marvel Legends nasceu em 1998 pela ToyBiz, mas foi a partir de 2002 que ela se consolidou como referência mundial. Com escala de seis polegadas e mais de trinta pontos de articulação, a coleção introduziu o que o mercado chama de super-articulação: juntas esféricas nos ombros, cotovelos, pulsos, quadril, joelhos e tornozelos, além de uma articulação no meio do torso. Esse nível de mobilidade permitiu aos colecionadores recriar cenas dos quadrinhos e do cinema com precisão inédita.

Thor foi um dos personagens centrais da Marvel Legends. Ao longo dos anos, recebeu dezenas de variantes, cada uma explorando um momento diferente de sua história. Houve versões com a armadura pesada usada durante a saga de Ragnarok desenhada por Simonson, versões com o uniforme tradicional azul e vermelho, e interpretações mais estilizadas inspiradas em artistas específicos. O martelo Mjolnir deixou de ser apenas uma peça sólida: passou a incluir versões em metal fundido, com cabo de couro sintético e pequenas runas esculpidas, conferindo um acabamento que antes pertencia apenas a estátuas de display.

A estética das embalagens também mudou. Caixas com fundo preto, janelas transparentes e ilustrações dinâmicas substituíram as tradicionais bolhas de plástico coladas em papelão. Cada boneco vinha com um encarte com informações sobre o personagem, transformando o ato de desembalar em uma pequena leitura. Para os colecionadores brasileiros, essa fase representou a entrada definitiva no mercado de alta qualidade, mesmo com preços em dólar que tornavam cada peça um investimento significativo.

Thor cinema e o espelho das prateleiras

A estreia do Thor nos cinemas em 2011, interpretado por Chris Hemsworth, abriu um capítulo novo na história das figuras do personagem. A Hasbro, que havia assumido a licença Marvel, lançou modelos diretamente inspirados nos figurinos do filme, com armaduras mais realistas, elmos com proporções diferentes e martelos com acabamento metálico. A escala de seis polegadas foi mantida, mas a articulação foi refinada para permitir poses de combate mais dinâmicas.

O filme Thor: Ragnarok, de 2017, trouxe uma das transformações visuais mais radicais: a versão gladiador de Thor, com armadura curta, cabelo raspado e sem o tradicional elmo alado. Essa figura caracterizada se tornou uma das peças mais celebradas pelos colecionadores, trazendo ainda o elmo curto da cena do duelo com Hulk, agora com aparência desgastada e textura fosca. O MCU também popularizou versões como o Thor com o elmo usado nas cenas finais do filme, e o Thor com armadura completa de Asgard, com ombreiras pontiagudas e detalhes em dourado.

Essas versões cinematográficas alcançaram as prateleiras e, em certo sentido, voltaram a influenciar os próprios quadrinhos. Após o longa Thor: Amor e Trovão, a versão de Jane Foster como a Poderosa Thor ganhou sua primeira figura com articulação padrão Marvel Legends, com elmo sem as tradicionais asas, capa curta e martelo com cabo branco, homenageando o desenho de Jamie McKelvie e Matt Wilson.

Colecionismo atual e o futuro das figuras do Deus do Trovão

O cenário atual das action figures do Thor é marcado pela abundância criativa. A Marvel Legends continua lançando novas versões a cada ano, incluindo o Thor clássico, o Thor Véio, o King Thor e versões alternativas como o Thor de Donald Blake. As técnicas de pintura evoluíram para incluir lavagens metálicas com cores brilhantes sombreadas com técnica extremamente realista, conferindo profundidade ao uniforme. Materiais como PVC flexível ganharam espaço nas pequenas tiras que prendem a capa aos ombros.

Outra tendência forte é a personalização. Empresas menores e customizadores independentes oferecem serviços de repaint, troca de cabeça e reconstrução de elmos, permitindo que o colecionador tenha em mãos uma peça única. Plataformas de impressão 3D ampliaram as possibilidades, com colecionadores fabricando martelos Mjolnir com runas precisas e itens nunca produzidos pelas grandes marcas.

Quem quiser acompanhar a próxima geração de figuras do personagem pode visitar os pavilhões da próxima Brasil Comic Con, onde colecionadores costumam negociar versões exclusivas diretamente com importadores e customizadores apresentam protótipos antes do lançamento.