Filmes do Universo Estendido DC e as vendas de action figures
A chegada do Universo Estendido DC aos cinemas representou um marco para o mercado de colecionáveis no Brasil. Quando a Warner Bros. confirmou o projeto ambicioso de conectar filmes de super-heróis em uma saga única, a expectativa entre colecionadores brasileiros se misturou com a dúvida: será que as novas figuras trariam a qualidade de sculpt e articulação que a comunidade exigia? A resposta veio aos poucos, entre lançamentos de Mattel, Spin Master e, mais tarde, McFarlane Toys, cada uma deixando marcas diferentes nas prateleiras das lojas especializadas e nas coleções particulares.
Este texto percorre os principais lançamentos cinematográficos da franquia e como eles alteraram a oferta, a procura e o perfil dos action figures vendidos no país. Em vez de um simples ranking de vendas, a proposta é entender os bastidores do mercado, as decisões de licenciamento e o comportamento dos colecionadores diante de cada novo capítulo. Para quem viveu essas ondas de lançamentos, é uma chance de revisitar memórias; para quem chegou agora, um mapa para entender por que certas peças se valorizaram enquanto outras permaneceram em liquidação.
O começo da saga e a reformulação das linhas da Mattel
A largada aconteceu com O Homem de Aço, em 2013. A Mattel, que já produzia linhas baseadas em Batman e Superman desde os anos 2000, aproveitou o filme para reformular completamente o sculpt de ambos os personagens. Os pontos de articulação foram ampliados, as proporções ficaram mais realistas e os acessórios passaram a incluir capas com fio de metal interno. Para os colecionadores acostumados com as figuras mais estáticas da linha anterior, o ganho técnico foi evidente.
No Brasil, o impacto foi imediato. As importadoras tradicionais de brinquedos passaram a trazer lotes maiores das figuras de quinze centímetros. As edições baseadas no visual de Henry Cavill como Superman e Ben Affleck como Batman esgotaram em pré-venda em lojas como Comix e Galeria dos Brinquedos. Muitos colecionadores que compravam apenas esporadicamente começaram a montar coleções temáticas, focadas exclusivamente no visual cinematográfico. O preço médio, que girava em torno de 120 a 180 reais para peças importadas, se estabilizou nessa faixa por quase dois anos, funcionando como referência para o interesse do público.
Batman contra Superman e a fragmentação do público colecionador
O lançamento de Batman v Superman: A Origem da Justiça, em 2016, trouxe um novo desafio. A recepção crítica morna nos Estados Unidos não se repetiu com a mesma intensidade no Brasil, onde o filme teve boa bilheteria. Ainda assim, a linha de brinquedos mostrou uma fragmentação interessante: além das figuras básicas, surgiram edições com armaduras alternativas, capas removíveis e versões "Knightmare" baseadas nos sonhos de Bruce Wayne. Essas últimas, posteriormente, se tornariam cobiçadas por causa das filmagens adicionais de Zack Snyder para o corte do diretor da Liga da Justiça.
A estratégia da Mattel incluiu múltiplas ondas e muitas variantes de embalagem. Colecionadores que buscavam fechar a linha completa perceberam que seria preciso paciência e orçamento maior. Lojas especializadas passaram a oferecer serviços de importação sob demanda, e grupos de troca em redes sociais ganharam força. O período também viu o crescimento dos módulos de cenário, bases com destroços e veículos que acompanhavam as figuras principais, elevando o valor médio do pacote. A percepção de que cada pacote comprado era um investimento começou a se consolidar nesse momento.
O fenômeno Mulher-Maravilha e a chegada das heroínas às prateleiras
Mulher-Maravilha, dirigido por Patty Jenkins e estrelado por Gal Gadot, chegou aos cinemas em 2017 e alterou a composição do mercado. Até então, a maioria absoluta das figuras em escala de quinze centímetros representava personagens masculinos. A procura por uma versão bem esculpida da amazona, com escudo, laço da verdade e espada, foi imediata. A Mattel respondeu com uma das linhas mais elogiadas da década, com proporções ajustadas, pintura detalhada e cabelos que realmente pareciam esculpidos em vez de apenas pintados.
No cenário brasileiro, o efeito foi mais amplo. Lojas registraram aumento significativo na procura por action figures de heroínas, incluindo personagens que não estavam em filmes, como Batgirl, Supergirl e Arlequina. Colecionadoras que até então compravam de forma pontual passaram a frequentar lançamentos e feiras com regularidade. A CCXP daquele ano abriu espaço para debates sobre representatividade nos brinquedos, e o tema rendeu pautas na imprensa especializada. A simples presença de uma Mulher-Maravilha bem feita em uma prateleira ajudou a legitimar a ideia de que super-heroínas poderiam protagonizar linhas inteiras, não apenas edições secundárias.
Liga da Justiça e o tombo nas vendas de 2017
O ano de 2017 terminou com um cenário de retração. Liga da Justiça, que reunia pela primeira vez os principais heróis da DC em um mesmo filme, enfrentou problemas de produção, refilmagens e mudanças de tom que resultaram em recepção fria. O impacto sobre as vendas de action figures foi direto: muitas figuras, especialmente as de Cyborg, Flash e Aquaman baseadas nos trajes utilizados no filme, permaneceram meses em estoque nas importadoras. Preços caíram, promoções surgiram e algumas peças só saíram das prateleiras com descontos agressivos.
Para os colecionadores, o saldo foi ambíguo. Quem tinha paciência para esperar conseguiu montar a equipe completa gastando menos do que gastaria em um ano normal. Quem comprou na pré-venda viu o valor de revenda despencar. O fenômeno alimentou um debate sobre a dependência excessiva do resultado de bilheteria, os riscos de cancelamento de sequências e a necessidade de oscilar entre lançamentos de alto e baixo risco. O ciclo de alta e queda se tornaria uma marca registrada dos anos seguintes, influenciado diretamente por variáveis que nada tinham a ver com a qualidade das peças.
Aquaman, Shazam! e a diversificação dos personagens
A virada começou a aparecer com Aquaman, em 2018. O filme dirigido por James Wan, com Jason Momoa no papel principal, reviveu o interesse por personagens considerados secundários no imaginário popular. A linha de action figures baseada no visual subaquático, com armaduras douradas e o tridente, teve saída rápida, especialmente as edições que incluíam efeitos translúcidos simulando água. Lojas voltaram a registrar pré-vendas esgotadas e o mercado paralelo viu os preços se estabilizarem, restaurando parte da confiança dos investidores em figuras de menor apelo comercial inicial.
Shazam!, em 2019, contribuiu com outro perfil de público. O herói adolescente, com visual colorido e mais leve, atraiu colecionadores que preferiam tonalidades menos sombrias. A Mattel, já sob pressão da concorrência, caprichou nas expressões faciais e nos acessórios que remetiam à transformação do personagem. No mesmo período, a empresa perdeu a licença de produção das figuras DC, transferida para a McFarlane Toys, do escultor Todd McFarlane, conhecido por trabalhos anteriores na linha de Spawn. A troca trouxe padrão de acabamento diferente, com mais detalhes nas texturas e maior fidelidade aos trajes tanto das HQs quanto dos filmes.
Aves de Rapina, Adão Negro e o fim de um ciclo
O início da década de 2020 trouxe novos capítulos, mas também o encerramento de um modelo. Aves de Rapina, lançado em fevereiro de 2020, pouco antes das interrupções causadas pela pandemia, teve vendas tímidas. As figuras baseadas na Arlequina de Margot Robbie, com visual colorido e acessórios como o martelo gigante, encontraram público, mas não repetiram o fenômeno de 2017. As importadoras brasileiras reduziram os pedidos, e muitas peças só foram distribuídas por meio de lojas especializadas em colecionáveis, não em grandes redes de brinquedos.
Adão Negro, em 2022, representou a última grande investida do período Snyder no cinema. As figuras do personagem interpretado por Dwayne Johnson, com seu visual negro e dourado, atraíram tanto fãs antigos quanto novos colecionadores interessados no herói. O Flash e Blue Beetle, em 2023, marcaram o encerramento formal da saga nos cinemas, com vendas modestas. O saldo de mais de uma década de lançamentos deixa claro que o Universo Estendido DC não foi apenas uma sequência de filmes: foi um motor que redefiniu padrões de produção, alterou a relação entre estúdios e fabricantes de brinquedos e mudou a forma como colecionadores brasileiros planejam suas aquisições para o futuro próximo.
A próxima edição da Feira Brasileira de Colecionáveis, marcada para o segundo semestre em São Paulo, terá um espaço dedicado à retrospectiva do período, reunindo raridades, protótipos e embalagens originais do auge e da crise dos lançamentos do DCEU.