Cultura pop, HQs e colecionáveis para o público brasileiro

Dez action figures raras que todo colecionador de Star Wars deveria ter

O universo criado por George Lucas em 1977 transformou para sempre o modo como crianças e adultos se relacionam com brinquedos. Antes do Episódio IV – Uma Nova Esperança, as action figures eram figuras de plástico articuladas de forma rudimentar; depois, a Kenner inaugurou uma era de colecionismo baseada em personagens detalhados, veículos comissionáveis e embalagens que viraram objetos de culto. Hoje, décadas mais tarde, encontrar uma peça rara de Star Wars é entrar numa jornada que mistura nostalgia, história do design e, em alguns casos, pequenas fortunas em leilões especializados.

No Brasil, a memória dessa cultura ganhou camadas extras graças à Glasslite, que fabricou localmente diversos personagens da trilogia original entre 1987 e 1988. Muita gente não sabe, mas muitas dessas figuras nacionais são hoje cobiçadas internacionalmente, algumas vezes superando versões americanas em preço de mercado. Para quem está começando a colecionar ou para veteranos em busca de novas metas, listamos dez action figures raras que merecem atenção especial, seja pelo contexto histórico, pela tiragem limitada ou pelas peculiaridades que as tornam únicas em qualquer prateleira.

Os clássicos esquecidos da Kenner nos anos 70

Poucos sabem, mas a primeira leva de action figures de Star Wars lançada pela Kenner em 1977 teve tiragens tão desiguais que alguns personagens praticamente desapareceram do mercado. O chamado Early Bird Kit, vendido por correspondência antes mesmo do Natal daquele ano, incluía quatro figuras em sua embalagem promocional: Luke Skywalker, Princesa Leia, Chewbacca e Snaggletooth. Este kit é considerado por muitos colecionadores o marco inicial da franquia, pois representou o pontapé do colecionismo moderno de figuras em escala 3 3/4 e introduziu a ideia de vender promessas antes mesmo do produto existir nas prateleiras.

Dentro da primeira onda, o Vinyl Cape Jawa é outro item lendário. As primeiras versões dessa figura vinham com uma capa de vinil em vez do tecido usual, detalhe que dava mais rigidez ao personagem mas que se deteriorava com facilidade. Hoje, exemplares em bom estado com a capa original alcançam valores superiores a mil dólares em casas de leilão. Da mesma época, o Blue Snaggletooth chama atenção por sua coloração azulada peculiar e pelo corpo desproporcional, resultado de uma confusão entre os departamentos de design e produção da Kenner. A versão vermelha, lançada depois, é mais comum; a azul é peça de museu.

A peça que talvez mais simbolize a cobiça entre os colecionadores é o Rocket Firing Boba Fett, cuja versão de produção nunca chegou às lojas. Em 1979, o brinquedo seria lançado com um foguete retrátil disparado por uma mola, mas a Kenner cancelou o mecanismo por questões de segurança antes da distribuição. Apenas alguns protótipos sobreviveram, sempre protegidos em caixas lacradas, e hoje são negociados por cifras que ultrapassam seis dígitos. Ter qualquer parente próximo dessa linhagem, como o Boba Fett de série comum em blister lacrado, já é vitória considerável para qualquer coleção.

Variantes internacionais que viraram tesouros

A saga de Star Wars foi licenciada para fabricantes ao redor do mundo, e cada país recebeu versões com pequenas diferenças que hoje são estudadas como verdadeiros artefatos. No Brasil, a Glasslite produziu figuras entre o final dos anos 80 e início dos 90, com licenças oficiais e detalhes de pintura ligeiramente distintos das peças americanas. Algumas delas, como o Han Solo com blaster dourado e a Princesa Leia com tiara diferente, são hoje disputadas por colecionadores dos quatro continentes, pois a tiragem nacional foi curta e poucas unidades sobreviveram ao tempo em bom estado.

No México, a Lili Ledy fabricou peças marcadas pelo logotipo característico da empresa, sempre com detalhes sutis em relação ao modelo original. As figuras dessa origem costumam ter braços, pernas ou torsos reaproveitados de outros brinquedos da empresa, o que confere aos exemplares uma anatomia peculiar. O Yoda da Lili Ledy, por exemplo, tem olhos verdes em vez de amarelos, e é considerado uma das variações mais procuradas entre os fãs latino-americanos. Essas diferenças não são defeitos, mas sim marcas de produção que tornam cada peça um capítulo único da história industrial.

Do outro lado do oceano, a Toltoys da Austrália fabricou action figures com caixas desenhadas exclusivamente para o mercado local, trazendo traduções próprias e cores de blaster específicas. Já a Meccano, no Canadá e na França, produziu versões com cartões de pintura diferenciados e algumas figuras exclusivas nunca lançadas nos Estados Unidos. Colecionadores brasileiros que viajam ou que mantêm contato com colegas no exterior costumam incorporar essas variantes em suas prateleiras como troféus de uma espécie de diplomacia colecionista, onde cada peça conta uma história sobre como a saga de Luke Skywalker atravessou fronteiras e ganhou sotaques regionais.

O Yak Face e outros fantasmas da Power of the Force 2

Entre os colecionadores brasileiros mais velhos, a menção ao Yak Face provoca imediatamente uma reação de respeito. Lançado pela Kenner em 1985 como parte da linha Power of the Force 2, o personagem baseado em Ellors Madak, de O Retorno de Jedi, foi produzido em quantidade muito limitada, pois a linha foi descontinuada pouco depois de sua chegada ao mercado. Hoje, exemplares em blister lacrado com a conhecida faixa vermelha da POTF2 podem ultrapassar a casa dos cinco mil dólares em leilões internacionais, e mesmo versões loose são vendidas por quantias consideráveis.

A própria linha Power of the Force 2 traz outras peças cobiçadas, como o Ree-Yees, o Lumat e o Anakin Skywalker em sua túnica Jedi com sabre de luz amarelo. Essas figuras foram feitas com moldes remanescentes da trilogia original reaproveitados para uma nova onda, o que explica as pequenas diferenças de coloração em relação às peças originais dos anos 80. Muitos colecionadores montam coleções inteiras dedicadas exclusivamente a essa linha, conhecida carinhosamente como a última grande investida da Kenner antes da Lucasfilm assumir a produção e redefinir os rumos do mercado.

Existe também um fascínio específico pelas variantes de país de origem presentes nas costas das figuras da POTF2. Figuras com carimbos indicando Hong Kong, Taiwan ou China, sem o tradicional carimbo da Kenner, são procuradas por especialistas que conseguem identificar a região de produção apenas pelo tipo de tinta e pelo formato da marca. Esses detalhes, invisíveis para a maioria dos admiradores, podem multiplicar o valor de uma peça em três ou quatro vezes, dependendo da raridade do lote original.

Protótipos, promocionais e itens de convenção

O mundo das action figures raras de Star Wars não se limita ao que foi efetivamente vendido em lojas. A Lucasfilm e a Kenner, ao longo das décadas, produziram peças promocionais para eventos, brindes corporativos e campanhas de marketing que circularam em quantidades mínimas. As famosas figuras Preview, lançadas em 1995 antes da nova trilogia, são versões inacabadas de personagens como Anakin Skywalker, Padmé Amidala e Mace Windu, frequentemente distribuídas em feiras como a Toy Fair de Nova York. Hoje, exemplares completos com a marca Preview na caixa são tratados como relíquias por colecionadores de todo o mundo.

Os itens de convenção continuam sendo uma fronteira viva do colecionismo. A cada San Diego Comic-Con ou Star Wars Celebration, a Hasbro e outras marcas lançam peças exclusivas limitadas, muitas vezes numeradas e vendidas apenas para os presentes. O legado disso é que mesmo colecionadores iniciantes podem mirar nesses eventos como oportunidade, sabendo que uma peça comprada em 2024 pode virar referência de catálogo em 2034. O truque está em manter a caixa original, os inserts e os lacres de fábrica, itens que frequentemente são descartados por descuido nas primeiras semanas após a compra.

No Brasil, eventos como a Comic Con Experience e feiras especializadas de colecionismo também já recebem lançamentos exclusivos para o público local, geralmente com tiragens que não passam de algumas centenas de unidades. Esses lançamentos seguem a tradição iniciada pela Kenner nos anos 70: fazer do colecionismo uma prática de paciência, pesquisa e, acima de tudo, paixão pela narrativa que as figuras representam em cada caixa lacrada.

Variações sutis que valem ouro

Nem toda raridade nasce de produção limitada ou cancelamento. Muitas action figures raras de Star Wars se diferenciam por detalhes quase invisíveis, e é justamente essa sutileza que fascina os colecionadores mais experientes. As chamadas variações de pintura incluem diferenças no tom do cinza do Han Solo da primeira onda, no verde do sabre de luz do Luke Jedi e até na tonalidade do uniforme do Stormtrooper. Cada uma dessas variações corresponde a lotes específicos da Kenner e da Hasbro, identificados por colecionadores através de minucioso trabalho de comparação fotográfica em fóruns especializados.

As variações de país de origem na parte traseira das figuras também entram nessa categoria. Existem três versões clássicas da figura do Darth Vader dos anos 70, cada uma com a legenda Made in Hong Kong, Made in Taiwan ou Made in China. Os três modelos são quase idênticos visualmente, mas os exemplares taiwaneses são considerados os mais antigos e, portanto, os mais disputados. O mesmo princípio vale para o C-3PO com detalhes em ouro escuro, mais raro que a versão dourada tradicional, ou para o Obi-Wan Kenobi com a capa de tecido original em vez da versão de plástico das tiragens posteriores.

Essas variações abrem um campo de estudo fascinante, conhecido como collecting by variations, no qual o colecionador monta planilhas detalhadas com todas as combinações possíveis de pintura,COO e tipo de capa. Para iniciantes, a recomendação é começar por uma ou duas figuras da primeira onda da Kenner e estudar as diferenças entre exemplares em sites de referência como o Imperial Commando ou o Galactic Figures, além dos grupos brasileiros no Facebook, que trocam imagens e dicas com frequência impressionante.

Como identificar, autenticar e preservar essas relíquias

Adquirir uma action figure rara é apenas metade do caminho. Preservá-la exige cuidados que vão desde o armazenamento até a documentação da procedência. O primeiro passo é manter a peça, sempre que possível, dentro do blister ou caixa original, pois figuras soltas perdem entre 50% e 80% do valor de mercado dependendo do personagem. Caixas devem ser guardadas em locais secos, longe da luz solar direta, com umidade controlada entre 40% e 55%. Em cidades litorâneas como o Rio de Janeiro e Salvador, onde a umidade é naturalmente elevada, o uso de desumidificadores e silica gel é praticamente obrigatório.

A autenticação de figuras raras passou por uma revolução silenciosa nos últimos anos. Além do tradicional exame visual, colecionadores experientes utilizam lupas de alta resolução, comparação de fontes tipográficas nas caixas, análise do tipo de plástico e até exames de luz ultravioleta para identificar retoques ou reembalagens fraudulentas. Em casos de peças mais valiosas, vale a pena consultar peritos reconhecidos pela comunidade, que emitem laudos documentados aceitos em leilões internacionais e ajudam a proteger o investimento do colecionador.

Por fim, manter um registro fotográfico completo, com imagens da frente, costas, detalhes doCOO e da caixa, ajuda tanto na hora de vender quanto na de preservar o histórico da peça. Muitos colecionadores brasileiros criam pastas digitais em serviços de nuvem para garantir que essas informações sobrevivam a qualquer imprevisto. Ao unir pesquisa, paciência e cuidado, qualquer colecionador pode construir uma coleção que vai além do hobby, transformando-se em verdadeiro arquivo cultural de uma saga que segue atravessando gerações em cada peça preservada com carinho.