A trajetória do vendedor de action figures mais antigo da 25 de Março
A Rua 25 de Março, no coração de São Paulo, é daquelas artérias urbanas que funcionam como um organismo vivo: respiram mercadoria, voz e história. Entre boxes de roupas, prateleiras de importados e barracas de quinquilharias, sobrevive um comércio que resiste ao tempo e às transformações do consumo. É ali, entre perdas e achados improváveis, que ainda se ouvem conversas sobre bonecos colecionáveis, estatuetas dos anos 1980 e revistas em quadrinhos amareladas pelo tempo.
Poucos sabem, porém, onde encontrar as verdadeiras relíquias do passado geek brasileiro. Não é raro ouvir colecionadores veteranos dizerem que, em algum canto da 25 de Março, existe alguém que conhece cada lote, cada fornecedor desativado e cada caixa lacrada esquecida num depósito. Esse sujeito virou uma espécie de oráculo do brinquedo colecionável, capaz de distinguir um importado falso de um legítimo pelo cheiro da caixa, pela marca do injetor ou pelo tipo de tinta aplicado nas peças.
Nesta conversa, sentamos com o comerciante mais antigo dedicado a action figures usadas em toda a extensão da rua. Ele nos recebeu numa cadeira de metal entre pilhas de caixas, com a tranquilidade de quem já viu tendências nascerem e morrerem. O que se segue é um retrato raro: a memória oral de quem ajudou a fundar o mercado de colecionáveis no varejo popular brasileiro.
Os primeiros anos no balcão da família
Ele chegou à 25 de Março ainda na adolescência, no fim dos anos 1970, arrastado pelo tio que já trabalhava no comércio de brinquedos. Naquela época, a rua não tinha a organização nem a divisão de boxes que tem hoje — o que existia era uma feira a céu aberto onde se negociava de tudo, de Jogos de botão a miniaturas importadas da Estrela e da Gulliver. O rapaz começou carregando caixas dos caminhões para os tios mais velhos e, em pouco tempo, já sabia qual era o fornecedor que entregava os He-Man falsificados e qual trazia os originais direto de Hong Kong.
Quando o tio fechou a banca, no início dos anos 1980, ele herdou algumas prateleiras e um punhado de contatos. O primeiro lote que vendeu sozinho tinha action figures do G.I. Joe usadas, ainda com os elásticos originais e sem os acessórios. Conta, rindo, que muitos clientes compravam os bonecos incompletos só pela nostalgia de terem tido aquele modelo na infância. As crianças dos anos 1970 estavam virando adultos, e o ciclo do consumo nostálgico começava a se configurar como um mercado real.
Com o tempo, ele percebeu que vender brinquedos colecionáveis era diferente de vender brinquedos comuns. O cliente não queria apenas o produto, queria a história, a procedência, o detalhe da caixa. Foi assim que passou a guardar cadernos com anotações sobre os lotes, datas, fornecedores e até nomes de colecionadores paulistas que apareceram na banca desde o fim dos anos 1980. Esses cadernos viraram um arquivo informal do mercado de action figures no Brasil.
A geografia invisível do brinquedo na rua
A 25 de Março tem uma geografia própria, que quem não é do ramo não enxerga. Cada trecho funciona praticamente como um setor: numa quadra predominam as bijuterias, em outra os eletrônicos, em outra os artigos religiosos. Os brinquedos e action figures usadas ocupam uma faixa específica, próxima às ruas adjacentes, numa espécie de microclima comercial. É ali que os vendedores se conhecem por apelidos e trocam mercadoria entre si, formando uma rede informal que funciona como uma bolsa de valores do colecionável.
Cada box tem sua especialidade. Uns vendem principalmente Transformers, outros preferem Star Wars, há quem se dedique aos bonecos do He-Man, e ainda os que se concentram em figuras de Star Trek ou em clássicos da Marvel e da DC. O nosso entrevistado, ao longo das décadas, manteve um catálogo amplo, capaz de atender tanto o fã de quadrinhos da Era de Bronze quanto o pai que quer presentear o filho com um boneco do Batman dos anos 1990. Em meio a esse pequeno universo, ele conhece cada vitrine, cada porta de ferro que se abre cedo, cada colega que aparece às seis da manhã para tomar café antes da abertura.
A rua também é marcada por uma relação quase afetiva com seus clientes mais antigos. O vendedor lembra o nome das esposas dos colecionadores, sabe quando alguém perdeu o emprego, quando um filho nasceu. A compra de uma action figure ali quase nunca é uma transação fria — é uma conversa, uma troca de memória, um momento de sociabilidade. É por isso que os frequentadores regulares costumam dizer que a 25 de Março é, antes de tudo, um clube onde se fala de cultura pop em voz alta.
Conversando com colecionadores no balcão
Foi a partir do próprio balcão que ele começou a entender quem eram, de fato, os colecionadores brasileiros. Os primeiros clientes eram quase todos jornalistas, publicitários e profissionais liberais com bom poder aquisitivo. Eles chegavam com listas escritas à mão, citando modelos importados que só se viam em embalagens americanas, e pediam orientação sobre o que comprar. Com o tempo, o perfil foi se democratizando: surgiram professores, metalúrgicos, estudantes universitários, gente de todas as regiões do país que ouvia falar das ofertas da rua por meio de listas de discussão e, depois, da internet.
Ele conta que os anos 1990 foram marcados pela chegada em massa das action figures da Playmobil, dos estúdios Todd McFarlane e pelos primeiros lotes da Vampirella nacional. Foi também o período em que começaram a aparecer, nas bancas próximas, publicações especializadas que ajudaram a consolidar a ideia de colecionismo entre adultos. O vendedor fazia questão de guardar números antigos das revistas e indicava a leitura para quem quisesse começar do zero.
Hoje, com o avanço das plataformas digitais e a popularização dos grupos de compra e venda online, ele reconhece que o público mudou. Vieram os jovens que descobriram o hobby por meio dos filmes, das séries e dos jogos eletrônicos. Vieram também os pais que querem reviver a infância ao lado dos filhos. Ele, porém, mantém uma postura clássica: ouvir, anotar, indicar e, principalmente, não vender nada que ele mesmo não compraria. É um código de ética do balcão que se tornou raro no varejo contemporâneo.
As três categorias da prateleira
Quem o visita hoje encontra uma mistura quase arqueológica de action figures usadas dispostas em caixas de papelão. Há lotes com etiquetas de preço feitas à mão, outras com anotações sobre o estado de conservação. Ele separa as peças em três grandes categorias: as nacionais, as importadas dos Estados Unidos e da Europa, e as chamadas "réplicas de boa qualidade", termo que aprendeu a usar para não rotular de "falsas". Essa distinção é central no ofício: quem compra precisa saber exatamente o que está levando para casa.
As nacionais são, na visão dele, a parte mais afetiva do estoque. Figuras da Estrela dos anos 1970, action figures da Trol e lotes da ELC descobriram um novo público nos últimos anos, à medida que o resgate da memória do brinquedo brasileiro virou tema de livros, documentários e matérias em sites especializados. Ele conserva caixas inteiras que nunca foram abertas, compradas de distribuidores que fecharam as portas na crise dos anos 1990. É ali que mora uma parte importante da história do entretenimento no país.
Quando o assunto é o material importado, o olho clínico se acende. Ele conhece as marcas dos injetores plásticos americanos, sabe identificar pelo toque uma peça europeia e desconfia de qualquer lote sem procedência clara. Muitos colecionadores mais novos chegam perguntando por Transformers da G1 e saem com uma palestra sobre as variações de cor entre a versão americana e a japonesa. Para situar essas peças no tempo, vale também consultar acervos paralelos como o catálogo de clássicos colecionáveis, que ajuda a conectar brinquedos, filmes e produtos culturais numa mesma linha histórica.
Memórias que viram arquivo
Parte do trabalho desse vendedor é, sem que ele perceba totalmente, a preservação da memorabilia coletiva do colecionismo. Ao longo das décadas, ele acumulou fotos de clientes com seus lotes, recortes de jornal, pequenas notas fiscais e bilhetes manuscritos pedindo para reservar determinada peça. Tudo guardado em pastas dentro de uma gaveta trancada, à qual ninguém além dele tem acesso. É a parte mais sensível do ofício: preservar a confiança das pessoas comuns que confiaram suas histórias ao balcão.
Ele conta que muita gente o procura décadas depois querendo vender de volta o que comprou, ou pedindo ajuda para localizar peças perdidas em mudanças. Houve quem viesse de Minas Gerais só para perguntar se ele ainda tinha aquele G.I. Joe com uniforme verde que o pai comprou quando o filho tinha oito anos. A devolução nem sempre é possível, mas ele anota o pedido numa agenda e, quando a peça aparece, faz questão de avisar. É um pequeno ritual de humanidade que o comércio da 25 de Março ainda permite.
Essa dimensão quase etnográfica do trabalho é um dos motivos pelos quais o vendedor valoriza tanto as conversas longas, mesmo quando não resultam em venda. Em certos dias, ele fecha a banca mais cedo para atender um colecionador que está reestruturando a coleção após um luto ou uma separação. Em outros, recebe universitários que estão escrevendo monografias sobre cultura material nos anos 1980 e querem entender como o mercado funcionava. Em todas essas situações, ele age como um verdadeiro guardião informal: pergunta, registra e devolve generosamente o que aprendeu.
O balcão numa era digital
Perguntado sobre o futuro, ele não dramatiza nem se queixa das mudanças. Reconhece que o comércio digital reorganizou toda a cadeia do colecionável, mas insiste que o balcão da 25 de Março cumpre um papel insubstituível. Numa loja on-line, argumenta, o cliente só enxerga a peça e o preço. No balcão, ele enxerga o vendedor, a banca, as outras peças em volta, o barulho da rua. É uma experiência multisensorial que o clique não reproduz. Por isso, mesmo com o encolhimento das margens e a redução do movimento em certos dias da semana, ele continua abrindo a banca todas as manhãs.
O filho adolescente, que aparece no balcão nos finais de semana, provavelmente dará continuidade ao ofício, ainda que mesclando o físico com o digital. O vendedor enxerga com bons olhos essa transição e planeja, com o rapaz, criar um pequeno catálogo virtual para atender clientes do interior e de outros estados. Mas não tem pressa. Para ele, a verdadeira função do balcão segue sendo a mesma de quarenta anos atrás: ponto de encontro, fonte de memória e termômetro do humor colecionativo do país.
Numa era em que os brinquedos duram cada vez menos e tudo vira arquivo digital em questão de segundos, esse balcão resiste como um lembrete de que nem tudo precisa ser digitalizado para continuar vivo. O que vale mesmo, insiste ele, é o gesto de sentar, conversar e, quem sabe, sair com uma pequena peça debaixo do braço e uma longa história para contar em casa.
Mesmo sem chamar a atenção para si, esse vendedor mais antigo da 25 de Março carrega consigo uma função cultural que poucos exercem com tanta naturalidade. Ele lembra a todo colecionador, veterano ou iniciante, que o colecionismo não se resume a prateleiras e catálogos: é também sobre as pessoas que ajudam a contar e a preservar essas histórias.